terça-feira, maio 08, 2007
O Capuchinho Vermelho leva à sua avozinha bolachas e um boião de manteiga. Anubis, deus-chacal, guardião dos túmulos, embalsamador e guia dos mortos, faz o papel do lobo. Na floresta, bem perto do lago das Duas Navalhas, Capuchinho Vermelho colhe folhas de papiro e flores de lótus. Procura também apanhar à mão os falcões d’ouro. A casa da avozinha tem a forma de uma pirâmide. Quando Anubis convida Capuchinho a deitar-se a seu lado, esta começa logo por tirar o capuz; depois, lentamente, desenrola as faixas que lhe envolvem o corpo – um corpo de múmia, magro e encarquilhado.
segunda-feira, janeiro 15, 2007
Sem hesitação
Outra história, versando o tema do Capuchinho Vermelho e do Lobo, conta que, por alturas em que o Capuchinho Vermelho está deitada, nua, já muito chegada ao Lobo, no momento exacto em que a conversa começa a versar sobre os dentes do animal, Capuchinho bruscamente se levanta. Sem cuidar sequer de enfiar as cuequinhas (de simples algodão branco), vestir a saia e ajustar o corpete escarlate, sai de rompante da cabana da avozinha e deita a correr pela floresta fora. Rápida. Muito rapidinha. Aí, ao chegar a uma clareira, dá com as três casas dos Três Porquinhos. Então, sem uma hesitação, entra na mais sólida.
terça-feira, março 17, 2009
Lorelei
Numa outra história, a avó mata e come o Capuchinho Vermelho com molho de escabeche. O lobo, que amava o capuchinho, vinga-a, preferindo, desta vez, o arsénico à arma branca. Depois lança-se ao Reno dos cimos do rochedo da Lorelei.
segunda-feira, janeiro 29, 2007
Xeque-mate
No pátio de uma casa grande e apalaçada de Odessa, numa noite de 1925, à luz do petróleo, em presença do comissário do povo e de alguns agentes da polícia política (GPU) disfarçados de vendedores de castanhas assadas, o Lobo e o Capuchinho Vermelho jogam xadrez. Quem ganha pode comer o outro. O Lobo perde. Capuchinho preferia não comer o animal pois a sua carne repugna-lhe um pouco. Tenta falar de perdão, de esquecer as ofensas, de generosidade. Aí nota um leve franzir de sobrolhos do mais gordo dos vendedores de castanhas, aquele que os outros parecem respeitar. Muda então de opinião. Pede ao comissário do povo que mande chamar o carniceiro mais próximo para que degole o Lobo e um cozinheiro para que confeccione um guisado. Vê então que o vendedor gordo, que é também aquele que tem o bigode maior, lhe sorri com um ar bonacheirão.
domingo, janeiro 21, 2007
Inelutável
Na constelação do Leão, o Capuchinho Vermelho é uma poça redonda e vermelha, formada por um líquido cujo sabor e cheiro evocam simultaneamente o mar e o mel. O Lobo é um triângulo negro sedento que, atraído pelo cheiro do Capuchinho fluido, desliza silenciosa e inelutavelmente sobre o solo, percorrendo milhares de quilómetros para o saborear.
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Perto do Escorial
Em 1592, no reinado de Felipe II, não muito longe de Madrid, para os lados do Escorial, um lobo cego ouviu, na floresta sombria, o canto do Capuchinho Vermelho que, desta feita, também era invisual. Esta voz, fresca e ligeiramente acidulada, atraiu o lobo. Um pouco mais tarde, já na cama da avozinha (que ostentava um rico baldaquim carmesim), Capuchinho Vermelho, na sua nudez grácil, acariciava com uma lentidão voluptuosa a que não faltava uma pitada de repulsa, as grandes mãos, os grandes pés, as grandes orelhas, as enormes órbitas vazias, os dentes imensos e acerados do lobo.
segunda-feira, abril 09, 2007
O Sermão
A 30 de Maio de 1731, às cinco da tarde, o dominicano Joseph Ropp prega um sermão na catedral de Reims. Nele compara Joana d’Arc ao Capuchinho Vermelho; o bispo Cauchon ao lobo; Carlos VII à avozinha. Relaciona o pequeno boião de manteiga com os santos óleos utilizados na sagração dos reis de França. Declara que, para falarem com Joana, São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida se transformavam em borboletas. São Miguel num bômbice (vulgo bicho-da-seda); Santa Catarina numa saturnália; Santa Margarida numa falena. «Ao subir à fogueira (diz o irmão Ropp), Joana puxou a fechadura, fez saltar o trinco e abriu a porta do paraíso.»
sexta-feira, janeiro 26, 2007
Bandeira vermelha
Em 1915, em Genève, Capuchinho Vermelho, de trinta anos de idade, protestante, filha e esposa de banqueiro, oferece a Vladimir Ilitch Oulianov, dito Lenine, a sua capa curta com capuz dos tempos de ninfeta para que dela faça a bandeira da revolução que está para vir. Vladimir Ilitch beija a jovem senhora na boca e diz-lhe: "É um costume lá da minha terra." Agradece-lhe o presente. Ignora ainda se a capinha pairará algum dia, flutuando, nos céus de São Petersburgo. Tem as suas dúvidas mas não quer desencorajar aquela ainda apetitosa burguesa que cheira a perfume caro, discretamente capitoso.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Em plena Floresta Negra
Na província de Württemberg, em plena Floresta Negra, no dealbar do século XIX, Capuchinho Vermelho inventava músicas para todos os momentos da sua existência quando, cantarolando, trauteava para os seus botões: um hino para despertar, uma tiroleza para se vestir, uma melopeia lenta para cozer os pãesinhos e bater a nata para fazer manteiga, uma salmodia para dizer adeus à mamã, um blues inquieto para penetrar na floresta ameaçadora, uma balada alegre e fresca para correr atrás das borboletas, uma arieta mais murmurada que cantada para perguntar à avózinha como accionar o trinco da porta, uma barcarola voluptuosa para se despir em frente do Lobo, uma litania em forma de ladainha para o questionar, enfim um breve réquiem à espera de ser comida. O Lobo, esse, só conhece uma cantiga: a do mal-amado.

