'Apocalypto'
Recomendo vivamente a nova realização de Mel Gibson, 'Apocalypto'. Além de cumprir uma das vocações naturais do cinema, mas que tem andado esquecida nos últimos tempos - a recriação de culturas ancestrais e a evocação de mundos e modos de vida desaparecidos, numa escala espectacular e em enquadramento aventuroso, mergulhando-nos no seu interior -, é um empolgante filme de acção e não se verga ao "antropologicamente correcto", mostrando a civilização maia muito próximo do que ela deve mesmo ter sido, tirando algumas incorrecções de pormenor e simplificações inevitáveis. O facto da fita ser toda falada em língua maia iucateca também contribui muito para a sua veracidade. Exageramente acusado de ser "muito violento", 'Apocalypto' é, pelo contrário, bastante menos brutal e explícito do que a maior parte do cinema de acção e de terror que se vê pelas telas, esse sim, insistente e gratuitamente cru e sádico. A violência, aqui, é toda justificada pelo enredo, bem como pelas características da sociedade que se reconstitui, simultaneamente desenvolvida e bárbara. (Curiosidade: a páginas tantas, no meio de uma das sequências mais tremendas do filme, Mel Gibson faz uma homenagem a Hergé, a Tintin e a 'O Templo do Sol'). O facto de 'Apocalypto' e do seu realizador estarem sob o ataque dos suspeitos do costume, por contrariarem as piedades multiculturalistas e as visões distorcidas pela correcção política das culturas nativas ancestrais, e por não fazerem o necessário acto de contrição histórico (o filme até já foi criticado por omitir o "genocídio" cometido pelos Conquistadores...) só abonam a favor de ambos.
26 Comentários:
A acusação do filme ser anti-culturas mesoamericanas autóctones é ridícula. Poder-se-ia até argumentar com mais propriedade o ponto de vista oposto, a partir do escamoteamento do canibalismo dessas sociedades, completamente ausente do filme.
A sua alusão à língua "maia iucateca" esclarece uma dúvida que me tinha ficado: a de que a língua em que o filme é falado não parece ter muitas semelhanças com o nauhatl. Calculo que a língua maia tenha muito menos a ver com as línguas faladas mais a ocidente do que eu pensava.
Esse interesse do Mel Gibson pela autenticidade das línguas faladas nos seus filmes é absolutamente de elogiar. Só tenho pena do grego (em que provavelmente romanos cultos e hebreus helenizados se entenderiam na Judeia) ter estado ausente do outro filme que tantos engulhos causou a tantos bons e genuínos samaritanos...
Outra dúvida que me fica é a da caça ao tápir (ou capivara), logo no início. Sempre pensei que uma das razões que poderiam explicar o canibalismo generalizado nas sociedades mesoamericanas -- ao contrário do que se passava tanto a norte como a sul, em sociedades de inferior, ou quando muito idêntico, nível civilizacional, em que essa ocorrência era muito mais rara (zona dos grandes lagos e pouco mais) -- tivesse sido a ausência de mamíferos de algum porte, susceptíveis de fornecer fontes alternativas de alimentação, para além da escassa pesca fluvial e do milho. Será que existiam mesmo «porcos» selvagens (sem os equivalentes domesticados?!) no México / Iucatão pré-colombiano? Penso que não. Mas então o que é que os jaguares comiam? Só macacos e galinholas? Confesso a minha perplexidade.
E agora uma adivinha: o que é que o «Green Berets», o «Apocalypto» e «The Miracle of Our Lady of Fatima» têm em comum?
Resposta: o sol aos saltos. No filme do John Wayne é o sol, no final do filme, a pôr-se sobre o oceano, como se o Vietname estivesse do mesmo lado do Pacífico que Hollywood (não, a acção não se passa no extremo meridional da Cochinchina, mas sim nos planaltos centrais e imediações de Saigão); e no do Gibson é um eclipse de sol (necessariamente durante uma lua nova) seguido no espaço de um ou dois dias por uma lua cheia...
Nota marginal: acabo de descobrir, ao procurar no IMDb o título original do velho filme sobre Fátima com o saudoso Gilbert Roland, o verdadeiro nome da principal suspeita: Lúcia Abóbora dos Santos. É caso para se dizer «ora...».
À laia de conclusão: gostei do filme e perdoo as avarias solares, mas umas sugestões canibalísticas não teriam ficado a mais.
Dizia eu do canibalismo: «[o] que se passava tanto a norte como a sul, em sociedades de inferior, ou quando muito idêntico, nível civilizacional, em que essa ocorrência era muito mais rara (zona dos grandes lagos e pouco mais)
E Brasil, bem entendido. Mas estava eu a pensar nos Incas, por exemplo, entre os quais não parece ter sido frequente (os lamas serão saborosos?), como não era entre os índios da planície norte-americanos, já que toda aquela malta subsistia à volta do bisonte para todos os fins...
Outra coisa boa no filme do Gibson: a viagem dos cativos da floresta rumo ao centro urbano, através da «cintura industrial» até ao «estádio do Belenenses» (como dizia um espectador perante a coloração azul das vítimas, hahaha)...
Concordamos em absoluto com o texto de Eurico de Barros.
Aliás, nas vésperas da sua apresentação fora de Portugal, estreou-se em Coimbra na passada quinta-feira, fizemos a sua apresentação no blogue.
O mesmo fizemos em relação a “Eragon”, cujos livros gostámos.
Também já vi e gostei muito. Parabéns ao Eurico e ao Pedro pela qualidade dos vossos textos.
Gostava de deixar aqui uns links que demonstram a qualidade dessa nova diarreia mental do alcoolico anti-semita Mel Gibson
http://www.mesoweb.com/reports/apocalypto-review.html
http://www.commondreams.org/views06/1217-24.htm
http://www.zmag.org/content/showarticle.cfm?SectionID=30&ItemID=11723
http://www.archaeology.org/online/reviews/apocalypto.html
Curioso, o critério de apreciação cinematográfica ser o "anti-semitismo" - e o alcoolismo. Então e o filme? Chama-se a isto... fanatismo.
É o caso dos anti-anti-semitas, por exemplo.
Leocardo, não li muito mas o que li chegou para ficar chocado com as alegações anti-semitas que se podem ler nos artigos que o meu amigo recomenda.
Ora veja só: "Hundreds of men are sacrificed on an Aztec-style sacrificial stone, their headless bodies thrown into a giant ditch reminiscent of a Holocaust documentary".
O autor -- que nunca deve ter lido o testemunho de Bernal Diaz (por exemplo), nem visto as pinturas murais e códices mesoamericanos sobreviventes -- está obviamente a criticar o anti-amerindismo (digamos assim) do Mel Gibson, mas «pilhas de corpos sem cabeça em documentários holocáusticos» comparáveis ao filme do odiado realizador?!
Nunca vi gozar de maneira tão sarcástica com o documentarismo holocáustico, que como deve saber é um modelo de verosimilhança e rigor cinematográfico.
Botelho, és um mentiroso pago pelos neo-nazis!
«[...] pago pelos neo-nazis!»
Shhh, não vá o fisco descobrir. Mas porquê essa obsessão com os «neo»? Então e o
Ivan o Terrível de Treblinka e os outros das fincas secretas sul-americanas e da Síria -- para já não dizer debaixo de cada cama -- já não contam para nada?!
Boas respostas, Pedro Botelho. Essa trupe precisa que lhes arreiem - com a matraca intelectual, claro. Hahahaha!
Não dêem mais corda a esta canalha fascista, neoliberal e inimiga dos direitos humanos e da dignidade dos povos nativos explorados ao longo da história! Altermundialismo triunfará!
Grande filme, fui ver esta tarde depois de ler o postal do Eurico de Barros e os comentários do Pedro Botelho. Do melhor que vi ultimamente. Um bocado impressionante, mas aquele mundo era assim mesmo.
"a esta canalha fascista, neoliberal e inimiga dos direitos humanos"
ora ai está uma salganhada ideologica que os debeis tanto apreciam
Este altermundialista é um ponto! Ahahahaha!
Todos INIMIGOS da decência humana e dos direitos fundamentais e da liberdade dos POVOS e NATIVOS oprimidos! E Mel Gibson LACAIO do capital de hollywood! Altermundialismo triunfará!
Vai pastar para a Venezuela.
"Aquele mundo era assim mesmo" O meu amigo tavares foi lá imigrante, assumo...
Não, mas conheço o bastante sobre as civilizações mesoamericanas para ter uma noção da autenticidade da recriação. E esta, tirando certas inexactidões pontuais, é muito boa.
Ó altermundialista, estás tão apanhado dos carretos que até assinaste mal o nome no segundo comentário! ganda maluco!
Cães, a gozar com coisas sérias como a dignidade dos povos explorados pela globalização! Abaixo! Altermundialismo triunfará!
Grande filme, sim senhor.
altermundialista: «Cães, a gozar com coisas sérias»
Béu, béu, rebeubéu, pardais ao ninho...
Suponho então que o Buiça, que tanto se indigna com os sacanas dos espanhóis, também se indigna com os sacanas que arribam às nossas costas diariamente.
NC
Pascual de Andagoya.....¿Sacana vascongado?
Achei o filme fantástico. Acho que a mensagem principal é sobre o apogeu e queda de grandes culturas que sempre começa de dentro para fora...Jaguar Paw sobrevive com a sua família - à sanha maia de manutenção do poder às custas do sacrifício do povão - e o instinto de sobrevivência leva-o para o interior, para longe das vistas do conquistador que chega para dar o golpe de misericórdia na civilização decadente. O final do filme é perfeito: de caçadora a elite maia passará a ser caçada...
Quem é-foi mais cruel-sanguinário?!... Ainda agora estamos em plena vigência da cadeia alimentar. Quem falou que faltou ou falta canibalísmo?
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