sábado, dezembro 13, 2008

'Requiem por uma Estrela', de António Lopes Ribeiro

No Natal de 1962, poucos meses após a trágica morte de Marilyn Monroe, António Lopes Ribeiro escreveu um poema em memória da (esta, sim) mítica actriz, que foi publicado na edição de 1 de Janeiro de 1963 do Diário de Notícias. Quase 46 anos depois de ter sido criado, ei-lo como presente de Natal antecipado para os frequentadores do Jantar das Quartas.

'REQUIEM POR UMA ESTRELA'

Pegaste no copo que tinhas ao lado
Tomaste o veneno que te haviam receitado
E disseste: Vou dormir.
E fechaste os olhos tão devagarinho
Que se diria que continuavam abertos.

Mas ninguém viu, não estava lá ninguém,
Estavas sozinha na tua cama de estrela
Sozinha no teu quarto de estrela
Sozinha na tua casa de estrela
Sumptuosa
Elegante
Extravagante
Como te haviam dito que deviam ser as casas das estrelas
Os quartos das estrelas
As camas das estrelas
E tu eras a mais formosa
A mais famosa das estrelas
A mais brilhante
A Única estrela
Que as outras eram só estrelas porque lhes chamaram estrelas
E tu eras, ó Marilyn, uma estrela a valer!

O teu céu era escuro
Tão escuro como a tua infância
Tão escuro que chegaste a julgar que não tinhas saído
Do ventre da tua mãe
E a tua mãe não tinha o juízo todo
E não sabia ao certo quem era o teu pai
E só tu sabias que eras bonita
Porque logo te disseram
Os vizinhos
Os garotos
Os rapazes
Os homens
E depois tu, muito naturalmente,
Achaste também que eras bonita
Viste que era bonita
Naquele espelho em que tu não cabias
Mas que, fosse qual fosse o bocado de ti que ele mostrasse,
Só mostrava beleza e perfeição.

Aquele espelho pequeno
Despertou em ti uma certa vontade
- Uma vontade certa -
De teres um dia um espelho muito maior
Em que pudesses ver teu corpo todo
Tu só o vias quando estava vestido
Reflectido nos vidros das montras
Ou nos espelhos grandes que algumas tinham ao fundo.
Mas tu sabias que o teu corpo era mais belo
Quando estava completamente nu,
As tuas mãos sabiam-no de cor
E não tinham dúvida nenhuma.
Mas os teus olhos tinham ciúmes das tuas mãos
E queriam saber tanto como elas
Descobrir como elas as maravilhas do teu corpo
Branco, roliço, macio
Tão macio
Que perguntavas a ti mesma muita vez
Se as estrelas não seriam feitas de penas de cisne.

Fechaste os olhos e não sabias que ias morrer,
Não, tu não sabias
Nem querias
Morrer!
A morte, em que pensavas às vezes,
Devia ser escura como a tua infância
E tu tinhas medo de voltar à tua infância
Tão triste e tão escura
Àquela casa de crianças abandonadas
Onde as outras crianças te puxavam os cabelos
Porque os teus cabelos eram mais belos
Muito mais belos do que os delas
Que pareciam cerdas de porco ao pé dos teus,
E elas puxavam-te os cabelos
E tu gritavas
E as vigilantes mandavam-te calar
Porque também tinham inveja da tua formosura
Porque não tinham sido, nunca, nunca
Tão lindas como tu
E as filhas ao pé de ti eram todas feias
Que parecia que tu tinhas roubado
Só para ti
A beleza de todas as criaturas,
E por isso não faziam caso
De ti e te ralhavam
E não se importavam
E fingiam que não viam
As outras a puxarem-te os cabelos

Fechaste os olhos e pensaste
(Tu pensavas melhor com os olhos fechados
Porque não vias nada feio à tua volta
E só pensavas em ti)
Pensaste como ias adormecer
Pensaste-te toda nua como naquele calendário
Que todos os soldados que iam morrer
Tinham pregado à cabeceira
Os olhos dos soldados eram os teus espelhos
Antes daquele olho frio de cristal polido
Que olhava para ti sem desejo
Mas que recolhia friamente a tua imagem
Para aquecer com ela os corações do mundo inteiro
Milhões de corações
Que batiam mais apressados
Quando tu passavas
Infanta do Além
Estrela Inacessível
No espelho enorme em que se reflectia a tua imagem
E diante do qual a multidão se comprimia em silêncio
Só para te ver e ouvir a tua voz
A tua voz meiga e perfumada
(Que a tua voz tinha perfume e não apenas timbre),
O perfume da tua voz era macio
E embriagador como o teu corpo
Aquele corpo que tu deste a todos nós
Metamorfoseado em luz
Que ilumina os nossos corações
E o nosso desejo de ti era casto e profundo.

Fechaste os olhos e adormeceste
Para nunca mais acordar
E passaste da vida para a morte
Sem sequer dar por isso.
E nós também não demos por isso
Porque tu continuas viva para todos nós
Tão linda como sempre foste
E sempre serás
Porque guardámos a tua imagem em caixas de folha
E podemos à nossa vontade fazer-te ressuscitar
Linda, linda, linda
Linda como sempre foste
E nunca mais deixarás de ser
Porque a morte gostava tanto de ti como todos nós.
Foi tão tua amiga
Que te levou com ela quando estavas bela como nunca
Estendida na tua cama de estrela
Com os olhos fechados
E assim nunca mais envelheces
Continuarás a ser a mais bela entre as mais belas
A Única estrela entre as estrelas
E quando abriste os olhos lá no Céu
Os teus olhos sem par
Gotas de luz num rosto de açucena
Deus
Que nunca vai ao cinema
Apesar de saber tudo
Pasmou de ter criado
Uma mulher como tu és
E perdoou-te por isso os teus pecados
E perdoou a todos quanto pecam por tua causa
E guardou-te entre os seus anjos predilectos
E fez com que tu estivesses sempre diante dos seus olhos
Para poder continuar a perdoar aos homens
O seu amor por ti,
Ó pecadora!
Ó Marilyn!
Ó pecadora pura, inevitável
Como o pecado original!

ANTÓNIO LOPES RIBEIRO, Natal de 1962

5 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

SIM, MARILYN!!
Mas então, e a JUDY (Campbell) EXNER?? Aquela «tipa», será que existiu?
Ou a CAMELOT estará (já) mais (DE)caída...?
Felizes Festas!!
MdN

6:25 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Magnífico!

8:11 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Comprido e chato.

3:11 da tarde  
Anonymous Luciana said...

Bela lembrança de Natal! Quase imaginamos a voz de Lopes Ribeiro a declamá-lo…

Boas festas Eurico! E parabéns pela participação – ainda que repescada – na nova edição do Pai Tirano!

http://coisapouca-07.blogspot.com/2008/12/s-tu-pai-tirano.html

10:37 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Magnífico poema

1:42 da manhã  

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